
Eu tenho andado assim; mais avoada que estressada, mais estressada que feliz, mais feliz que insensível, mais insensível que confusa e mais confusa que cansada.
Tudo ao mesmo tempo, uma confusão. E ainda bem que não dá tempo de pensar. Eu reclamo, faço drama até quando não quero, mas eu estou adorando isso de estar muito ocupada. Cansa, envelhece, mas é ótimo. A cada dia eu aprendo tanto que precisei comprar um diário maior e agora escrevo passo a passo de tudo o que aprendo na cozinha. Todos os pratos, vinhos que experimento, novos ingredientes, técnicas, etc. Quando meu estágio acabar, pego o diário, salteio com um pouco de cebola, passo no liquidifador, depois na peneira e injeto com uma seringa direto no meu sangue. Não quero esquecer de nada.
Agora no restaurante eu ganhei mais confiança. Larguei os aperitivos e fui promovida pros pratos principais. Isso sem falar nas sobremesas, que como o Junya e o Marco não gostam, e o novo chef não faz idéia do que tenha na geladeira da confeitaria, eu domino sozinha. Mando e desmando. Compro leite, creme, faço tudo que serve e faço minhas decorações de acordo com meu humor. Se estou muito triste, uso só chocolate e faço um prato introspectivo, passo a noite fazendo coisas assim, marrom. Fica lindo, romantico. Se estou alegrinha faço durante o dia uns molhos coloridos, de laranja ou kiwi. Faço uma festa durante o serviço. Florzinhas, sorrisos escondidos e se souber que um casal pediu um doce, dou um jeito de colocar um coração discreto em algum lugar. Ninguém além de mim entendem minhas decorações. E como o dono do restaurante adora novidade e confia em mim, ele simplesmente pega o pratão, sorri, me olha e vai pro salão entregar meus humores aos clientes.
Ele, o Giancarlo, é ótimo. Um tiozão, que tem a missão de continuar com a tradição do restaurante de mais de cem anos da família. A mãe e os irmãos cuidam do Hotel 4 estrelas que fica na rua de trás. Ele, que é sommelier, adora o que faz. Eu também adoraria se fosse ele. Todos os dias vai e volta da cantina, que fica em algum lugar até então misterioso pra mim, e a cada 'leva' traz vinhos de certa região da Itália e coloca na adega, à meia luz, cheia de termometro e controladores de humidade por todas as partes.
Sim! A novidade de ser promovida se deu também ao fato da coreana (ou a porquinha, como preferirem) ter chegado. Agora ela tem que se virar com o abridor de apetite do pessoal. Não é um trabalho fácil, mas é pouco reconhecido. ;)
Eu divido o quarto com ela, não tanto de bom grado, mas estou me acostumando. Até porque de uma forma ou de outra, eu me sinto como se tivesse A MINHA PRIMEIRA ESTAGIÁRIA!!! Imaginem.. uma estagiária que tem sua própria estagiária. Sou eu! Brincadeiras à parte, a Micaela só fala inglês, e nem uma palavra de italiano. Como na cozinha o que os meninos menos têm é paciência, eu sou sempre encarregada de ficar com a Micaela pra mim.
-Mili, hoje faz 2kg de marmelada de maçã.
-Sim, chef.
-And me chef, what do I do? -Pergunta a Micaela.
-Micaela.. today you... err... er.... hmm... Mili!!! Help Mili.
E eu dei carinhosamente 2kg de maçã pra Micaela descascar e tirar as sementes e o cabinho, enquanto vou fazer outras coisas. Foi assim no primeiro dia e assim é desde então. Ela chega na cozinha -sempre depois de mim- e já vem pra perto ver o serviço que a espera. No começo eu pegava pesado, e dava aqueles trabalhos repetitivos que nos dão calo nos dedos e no juízo, como cortar cebola, cenoura, salsão, fazer bolinhas de ganache ou ficar mexendo a marmelada no fogo. Mas agora eu dou trabalhos mais difíceis e a integro com o pessoal pra que ela me deixe um pouco sozinha de vez em quando. Hoje por exemplo, eu descasquei os 2kg de maçã enquanto a coloquei pra fazer o mousse de chocolate. O mousse virou manteiga, mas tudo bem. Chocolate é sempre chocolate.
E a última pessoa a chegar é sempre a qe recebe mais pressão. Como se já não bastasse o choque cultural, ainda tem que ser caloura e aguentar tudo que falam, que gritam, e nem sempre com razão. E o que falam e ela não entende? ô dó. Mas comigo foi assim também, e antes de mim também foi com o Junya. Lembro que assim que cheguei, ficava aterrorizada com os gritos que davam no pobre do Junya, que logo em seguida se transferiram pra mim. MILI NÃO!!! MIIILIIIII O QUE VOCÊ FEZ??? O QUE É ISSO??? MIIIIIIILIIIIII!!! Aff. Mas com o tempo os segredos da cozinha vão se revelando e os erros se tornam~mais raros. Já a Micaela, bissinha. Vamos ver se ela aguenta.
Isso me lembrou uma parte, já no fim, de Clube da Luta, quando o Tyler começa a fazer o exército pra colocar em ação o projeto caos. Ele primeiro fazia a pessoa sofrer e se humilhar na porta da casa, pra só depois deixá-la entrar. Era uma forma de teste de força, de estado mental, sei lá.
E essa semana algo inesperado e muito gostoso aconteceu. O dono do restaurante me pediu pra trabalhar na segunda, quando o chef estaria na escola dando aula e o japa na escola de italiano, e em troca disso, como forma de pagamento, ele pagaria minha viagem pra pegar minha mala na escola. :) A viagem custou 25 euros. Não é lá essas coisas e o fato dele pagar a viagem foi muito mais simbólico pra mim do que material. Eu teria que pagar do mesmo jeito pois precisava de minhas coisas todas perto de mim. Agora eu tenho todos os meus CD's e DVD's perto de mim. Um alívio pra mim e uma glória pro Junya e Micaela que agora ouvem noite após noite uma serenata particular de música brasileira. Nação Zumbi, Elis ou até Legião Urbana.. vale tudo pra fazê-los contentes. Adoro meus orientais de risada fácil.
E é isso. Pra quem só ler as frases em destaque, eu vou falar bem alto.
EU NÃO SEI QUANDO VOLTO.
Não sei mais colocar em destaque :(
Na foto: Meu ex chef -Sandro-, o Marco e meu atual chef -Marco-.
