Pois bem, depois de me acostumar com o Mili, descobri porque o Marco -o segundo chef- me colocou esse apelido. Estávamos na casa dele fazendo aquele repouso quando nossa paz é destruída com a visita dos pais dele e do cachorro. Uma família típica de italianos, donos de padaria e gordinhos fofos que falam, falam, faaaaaaaaaaaaaaaaalam... e comigo falam muito alto e num ritmo lennnnnnnnnnnto, pois acham que não entendo. Eu adoro, e até faço cara de quem não entende mesmo, arregalando meus olhos até franzir bem muito a testa e fazendo sorrisinho amarelo. E tome Marco me chamar, e a mãe de Marco me chamar, e eu sempre alerta sem entender, já que eu já estava ali do lado. Mas aí chega o bendito Bili! O cachorro do Marco, que mora lá em Gênova com seus pais. Passei o resto da noite num estado leve de tensão achando que toda vez que gritavam pelo Bili, estavam na verdade chamando Mili. E foi assim que Marco deu um jeito de aprender meu nome rápido. Danado.
Já o japonês, o Junya (que se pronuncia como o feminino de Júnior, se é que isso existe, num sotaque nordestino) , me chama de Mili San e eu acho isso tão chique. Me sinto meio que naquele filme que todos pensaram também, com direito a trilha sonora e tudo. Dá vontade de encerar carro, pegar mosca com palitinho e me inspiro pra dar uns golpes no meu chef (brincadeirinha). Segundo meu companheiro de casa, San é algo respeitoso, como “senhor”, mas que é usado entre jovens e amigos. Em pensar que meu tratamento entre amigos é de “mulherzinha” pra lá. Eu adoro o respeito que o Junya tem, não me deixando ter muito trabalho na cozinha e me deixando quieta na minha privacidade. Ele é um mimo.
Hoje veio me perguntar por que a Mili San deixa livros no banheiro. Respondi que era pra ler, claro e ele continuou sem entender. “Mas pra ler em que momento?” perguntou meio que sem graça, e o Marco que estava por perto usou toda a educação dos ocidentais pra dizer que é “Pra dar uma cagada”. Assim mesmo... “Per cagare”, em italiano.
Esses dias resolvi abastecer o nosso apartamento com coisas básicas que faltavam, e que diga-se de passagem é obrigação do dono do restaurante providenciar pra nós, e fui às compras. Não quero logo de cara chegar pedindo, exigindo e levar fama de chata. Vou guardar isso pra quando faltar algo que realmente me incomode. Pois bem, comprei sal, detergente (lavávamos os pratos com sabão em pó), água sanitária, água mineral (antes só da torneira, bem), frutas (não tem intestino que aguente comer pasta, pasta e pasta) e flores. As flores coloquei em meu quarto, mas o resto claro que coloquei tudo em nosso espaço comum que é a cozinha. Hoje me chega o Junya San, muito sério e me chama na cozinha:
-Mili San.
-Hum?
-Isso. Eu gostaria de usar. Disse o Junya enquanto apontava pro detergente e pro sal.
-Oxe! Use. Quer que eu lave sua louça é? Ou quer lavar a minha? To entendendo não.
-Eu gostaria usar. Dinheiro. Posso te dar. (RIMOU!)
-Menino do céu! Deixe de besteira.
-Sim! Dinheiro. Metade. Gostaria de usar.
-Nãããão! Por favor, use e não faça cerimônia.
-Ohhhhhhhhhhhhhh..Sim? Ohhhhh. Mili San muito gentil. Ohhhhhhhhh...
Que mimo. Um mimo de “minino”. Esperou alguns dias e aposto que ainda lavou a louça com sabão em pó e comeu comida sem sal. E viva a educação dos orientais. \o/ Se bem que a Ana fazia cada coisa estranha viu... aff. Mas isso fica pra depois. Mas o Junya que deve sofrer com minha música alta, meus telefonemas na calada da noite, meus cabelos no chão molhado do banheiro e minha louça suja acumulada.

Foto ilustrativa, dos coreanos que estudavam na escola, da mesma turma da Ana. Na foto eu o meu preferido, o Totó. O único que tinha tatuagem, barba e fumava. Não só uma, mas três coisas MUITO estranhas em seu país. Ríamos da dose de bebida que ele tinha me dado, com cerveja e vinho, no típico Corean Style.


