28 fevereiro 2007

Mili San

Aqui me chamam de Mili. Eu demorei pra me acostumar, já que nem todas as vezes que me chamam é pra falar palavras carinhosas, e esse com apelido fofinho do jeito que é, eu já acho que me chamam pra me fazer um cafuné. Mas que nada. Estou cansada de ouvir "Mili! Isso está muito grande assim" ou "Mili isso está muito pouco assado", etc. Na cozinha, principalmente em uma cozinha que você não conhece e ainda mais com pouca experiência na coisa, palavras doces são tão raras quanto um avental limpo.
Pois bem, depois de me acostumar com o Mili, descobri porque o Marco -o segundo chef- me colocou esse apelido. Estávamos na casa dele fazendo aquele repouso quando nossa paz é destruída com a visita dos pais dele e do cachorro. Uma família típica de italianos, donos de padaria e gordinhos fofos que falam, falam, faaaaaaaaaaaaaaaaalam... e comigo falam muito alto e num ritmo lennnnnnnnnnnto, pois acham que não entendo. Eu adoro, e até faço cara de quem não entende mesmo, arregalando meus olhos até franzir bem muito a testa e fazendo sorrisinho amarelo. E tome Marco me chamar, e a mãe de Marco me chamar, e eu sempre alerta sem entender, já que eu já estava ali do lado. Mas aí chega o bendito Bili! O cachorro do Marco, que mora lá em Gênova com seus pais. Passei o resto da noite num estado leve de tensão achando que toda vez que gritavam pelo Bili, estavam na verdade chamando Mili. E foi assim que Marco deu um jeito de aprender meu nome rápido. Danado.
Já o japonês, o Junya (que se pronuncia como o feminino de Júnior, se é que isso existe, num sotaque nordestino) , me chama de Mili San e eu acho isso tão chique. Me sinto meio que naquele filme que todos pensaram também, com direito a trilha sonora e tudo. Dá vontade de encerar carro, pegar mosca com palitinho e me inspiro pra dar uns golpes no meu chef (brincadeirinha). Segundo meu companheiro de casa, San é algo respeitoso, como “senhor”, mas que é usado entre jovens e amigos. Em pensar que meu tratamento entre amigos é de “mulherzinha” pra lá. Eu adoro o respeito que o Junya tem, não me deixando ter muito trabalho na cozinha e me deixando quieta na minha privacidade. Ele é um mimo.
Hoje veio me perguntar por que a Mili San deixa livros no banheiro. Respondi que era pra ler, claro e ele continuou sem entender. “Mas pra ler em que momento?” perguntou meio que sem graça, e o Marco que estava por perto usou toda a educação dos ocidentais pra dizer que é “Pra dar uma cagada”. Assim mesmo... “Per cagare”, em italiano.
Esses dias resolvi abastecer o nosso apartamento com coisas básicas que faltavam, e que diga-se de passagem é obrigação do dono do restaurante providenciar pra nós, e fui às compras. Não quero logo de cara chegar pedindo, exigindo e levar fama de chata. Vou guardar isso pra quando faltar algo que realmente me incomode. Pois bem, comprei sal, detergente (lavávamos os pratos com sabão em pó), água sanitária, água mineral (antes só da torneira, bem), frutas (não tem intestino que aguente comer pasta, pasta e pasta) e flores. As flores coloquei em meu quarto, mas o resto claro que coloquei tudo em nosso espaço comum que é a cozinha. Hoje me chega o Junya San, muito sério e me chama na cozinha:
-Mili San.
-Hum?
-Isso. Eu gostaria de usar. Disse o Junya enquanto apontava pro detergente e pro sal.
-Oxe! Use. Quer que eu lave sua louça é? Ou quer lavar a minha? To entendendo não.
-Eu gostaria usar. Dinheiro. Posso te dar. (RIMOU!)
-Menino do céu! Deixe de besteira.
-Sim! Dinheiro. Metade. Gostaria de usar.
-Nãããão! Por favor, use e não faça cerimônia.
-Ohhhhhhhhhhhhhh..Sim? Ohhhhh. Mili San muito gentil. Ohhhhhhhhh...
Que mimo. Um mimo de “minino”. Esperou alguns dias e aposto que ainda lavou a louça com sabão em pó e comeu comida sem sal. E viva a educação dos orientais. \o/ Se bem que a Ana fazia cada coisa estranha viu... aff. Mas isso fica pra depois. Mas o Junya que deve sofrer com minha música alta, meus telefonemas na calada da noite, meus cabelos no chão molhado do banheiro e minha louça suja acumulada.


Foto ilustrativa, dos coreanos que estudavam na escola, da mesma turma da Ana. Na foto eu o meu preferido, o Totó. O único que tinha tatuagem, barba e fumava. Não só uma, mas três coisas MUITO estranhas em seu país. Ríamos da dose de bebida que ele tinha me dado, com cerveja e vinho, no típico Corean Style.

26 fevereiro 2007

Aquário ou Piscina? ou Prazer, Saudade

O meu blog estava até agora com 69 postagens. Eu quis deixá-lo assim por muito tempo e não tive coragem de postar nada aqui nessa minha semana de férias. Uma questão estética. Ainda preciso contar como fui de mudança, como é meu novo restaurante e consequentemente meu novo chef e coleguinhas de cozinha. E tem o japonês que divide o apartamento comigo, que pode me render alguns parágrafos. :) Mas enquanto eu não recebo uma inspiração seja lá de quem -leia-se ânimo- pra escrever tudinho, vai uns links úteis.

Meu novo restaurante: http://www.anticogenovese.it ... muito chique, bem.
Aquário que me emburaquei esses dias: http://www.acquariodigenova.it/ É o maior aquário das Urópa. Fui em Genova e não achei nada melhor pra fazer, já que chovia e eu estava perdida. Fiz fotos lá de dentro, mas podia ter feito melhor, claro. Vejam as fotos aqui: http://www.flickr.com/photos/49159219@N00/ tem fotos que tirei na escola, na minha ex casa e tudo.

Que fofura, gente. A minha foto preferida da Piscina.

E por falar em aquário, o homem mais inteligente que eu conheço, o Meu Tio Wilson me contou que é um erro chamarmos de aquário esse ambiente artificial onde vivem os peixes, já que aquário originalmente -de onde mesmo?- quer dizer uma porção de água, enquanto piscina vem de peixes -latim? grego? ajuda!- Então deveríamos chamar piscina de aquário e vice-versa.. Eu sempre achei mesmo que o mundo estivesse meio ao contrário, mas tirar onda com os peixes é de dar dó.
E num papo que mais parecia bolacha de padaria, que você não consegue parar de comer nem que se entale todo e ainda fica limpando os dentes com o dedo, ele, o Meu Tio Wilson, me fez derreter como manteiga clarificada em mãos de ferreiro. E faço minhas as suas palavras:

Quisera te apresentar / a saudade, a qualquer hora / mas se chegas, ela se vai / mas volta, se vais embora


18 fevereiro 2007

O meu Chef

Escrevi isso quando ainda estava em Taormina. Agora, em Varazze, meu chef é um docinho mas já me fez chorar uma vez. DIsso eu falo depois. O chef que me refiro nesse posto é o meu ex-chef. -Arrepios-



Aqui tudo será maiúsculo porque, sem exagero, o meu ex chef só faz gritar. Mas a minha teoria é que ele é surdo e acha que o resto do mundo também o é. Essa teoria já foi aceita por todos na cozinha.

-EMILIA!
-Oi
-FAÇA LOGO ESSES BISCOITOS E DEPOIS FAÇA MOUSSE, SOUFLÉ E O CREAM BRULE. MEIA HORA!!! VOCÊ TEM MEIA HORA PRA FAZER ISSO.
Imediatamente acelerei o passo dos biscoitos...
-EMILIA!!!!!
-Diga
-OUVIU O QUE EU FALEI?
-Oxe! Ouvi sim. Ja to acabando os biscoitos, ó.
-ENTÃO RESPONDA!!!! DIGA "SIM, CHEF. ENTENDI O QUE VOCÊ FALOU." COMO EU VOU SABER SE VOCÊ OUVIU OU NÃO? VOCÊ FALA ITALIANO? ENTENDE? ENTÃO RESPONDA!
-Sim, chef. Entendi. (falei isso enquanto pensava: para de gritar no meu ouvido, po! numa cozinha de 10x5m com alguém gritando em meu ouvido, como eu posso não ouvir nada? me deixa que eu to de bode, vai.)
No outro dia, no mesmo bat-local e bat-horário...
-EMILIA!
-Hum?
-Hoje você precisa fazer mais tortino de maçã, pois temos muitas reservas.
-Sim, sim. Tá certo.
-Sim, sim? COMECE JÁ A FAZER ISSO!!!! QUANDO EU FALO PRA FAZER ALGUMA COISA, VOCÊ NÃO RESPONDA NÃO! TEM É QUE FAZER E PRONTO. SIM, SIM... NADA DE SIM, SIM! FAÇA ISSO JÁ E NÃO QUERO MAIS OUVIR SUA VOZ HOJE.
-???

Mas e aí... eu respondo ou não?

Continua em outro post...


Ou não.

11 fevereiro 2007

Sempre pode ser pior

Assim que cheguei na Itália, me lamentava demais de tudo e qualquer coisa. Bobinha, pois não sabia o que me esperava.

Meu primeiro mês eu passei em Florença, estudando Italiano. Morava com um monte de menina -que salvaram meu mês- e era a mais velha da casa. A casa era velha, mas tinha dois banheiros grandes, banho de banheira bem quente e o mais importante: eu estava em Florença. Cidade linda demais, que nos primeiros dias eu achava muito velha, muito feia e queria ir embora dali logo. Mas minha estadia em Florença foi tão boa e nas últimas semanas eu já sabia que iria sentir muita falta daquela vida. Nos davamos muito bem, nós 5 que dividiamos o ap. e viviamos juntas. A cada dia uma nova farra, uma nova história, uma nova comida, um novo segredo. Essas coisas boas da vida. Mas apesar de tudo eu ainda reclamava. Reclamava que a internet era cara (pagava 1,50 por hora), que a casa era velha, que estava longe de casa, que as pernas doiam de tanto pedalar, que as baladas eram sempre iguais, etc.

Logo depois fui pra Costigliole d'Asti e sem nenhum dia de folga, comecei o curso, ainda de ressaca de Florença. Achava que a vida era dura, 9 horas de aula por dia, ajudava na cozinha dia sim, dia não. Reclamaaaaaaaava que só. B-O-B-I-N-H-A! O meu quarto era cheirosinho, as americanas que dividiam o quarto comigo eram ótimas -mas disso eu nunca reclamei-, todos os dias tinha uma moça -a Cristina- que arrumava meu quarto, fazia minha cama, limpava o banheiro -e a banheira-, preparava um belo café da manhã com suco, leite, café, pão quentinho e tudo mais. Eu reclamava da bendita ladeira que subia pra chegar à escola, que ainda acho imoral mesmo. Mas depois de andar ladeira acima, chegava no castelo bonitinho, na cozinha limpinha, na estação que era só minha, com panelas novas... suspiros. Mas eu reclamava! E ainda tinha Filipe que se estava de bom humor me fazia uma massagem nos pés. E a comida? No almoço sempre tinha primeiro e segundo prato e uma bela sobremesa. Com água de marca e tudo. Já no jantar comiamos o primeiro, o segundo, frutas, as benditas águas e sempre tinha um vinho pra acompanhar. Todo santo dia. Por que eu reclamava? Nem lembro mais.

Acabaram-se os dois meses de curso e lá vem eu pra Sicília fazer o estágio. Aff !!! Eu vou esperar ser rica e famosa pra poder contar tudo sobre o restaurante que trabalho e sobre meu chef. Enquanto isso não acontece, eu conto as coisas mais banais que estou passando. Eu moro em uma casa velha e muito da mal conservada, que chega a feder. Faz frio, é úmida, das paredes sai um pó branco que me faz morrer de espirrar, não tenho máquina de lavar roupa e tenho que lavar tudo à mão e estendo na sala, o que torna a casa mais úmida. No banheiro vaza água da descarga e o chão vive molhado, o ralo vive entupido e temos que tomar banhos muito rápidos ou então tudo fica alagado e a água quente logo acaba. Na cozinha o frigobarzinho não gela, só congela. Da pia vezes sai água, vezes não, mas no chão sempre tem uma água misteriosa que não sabemos de onde vem. Parece que tudo aqui está contra nós. E ainda faz frio, porque meu chef não quer gastar com energia e nos deixou sem aquecimento. Economia né. Eu entendo. E o trabalho? Não vou publicar -ainda- os detalhes do que acontece na cozinha, mas é cansativo por demais trabalhar 16 horas sob a pressão de um chef ¨&%¨%$¨%, ter que esperar duas horas por carona e chegar numa casa lixo pra descansar as poucas horas que se tem de folga à noite. Eu não sei se fico triste ou feliz ao chegar em casa. Também não mais me importo tanto com o banheiro, ou a cozinha ou nada, pois só os uso por mais de 5 minutos nas segundas-feiras, quando tenho folga.

Agora o drama todo MESMO eu só conto quando sair daqui. Porque testar os limites e a paciência só me fazem crescer. Assim espero. Se não for, pelo menos fiz boas fotos do lugar, conheci um pintor* croata que me entretia e aprendi a fazer um bom Cannoli. E a única coisa que me tranqüiliza é que a situação não pode piorar. Eita... ou será que pode?

:(