Estou no apartamento do Marco, enquanto ele tirou merecidas férias e está agora em Amsterdã, melhor que eu. Não sei se me ofereci pra cuidar de sua cama super ultra king ou se ele me pediu pra ficar de olho nos seus inquilinos e desligar o aquecedor todos os dias, mas cá estou. Meio que de férias da minha casa sem máquina de lavar e utensilios de cozinha. Estou vivendo pela primeira vez em uma casa normal, com TV e panelas. E eu aproveito tudinho.
Ontem que foi meu dia de descanso eu cozinhei. Hoje que por meia jornada não trabalho, eu cozinhei. Alimentei o casal de equatorianos que vivem aqui e que também trabalham comigo, a Laura e o Alex, que apesar da boa forma, cooooomem...
O que mais gosto é quando eles fecham os olhinhos se gostam muito da refeição e ao invés de simplesmente meterem a comida goela abaixo, como fazem sempre, eles começam a mastrigar devagar, procurando sentir e adivinhar todos os sabores novos que estão aproveitando. É lindo. Eu só faço olhar... nem fome sinto.
Hoje fiz um risotto de coelho pro almoço. Acordei mais cedo do que acordaria pra trabalhar pra dar tempo de fazer tudo direitinho. Depois de uma pequena tragédia na cozinha -não conto!!!-, nasceu meu risotto. Lindo, cremoso, e com todos os pre-requisitos pra ser aceito num concurso mundial de risottagem.
A hora tão esperada chegou. Eles chegaram em casa do trabalho e lá estava o risotto, terminando de amanteigar e fumaçando, pronto pra cumprir seu papel no mundo. (afff.. como to dramatica. é a lua)
Na mesa, com olhinhos fechados, mastigando devagar, a Laura pergunta;
-Mili, o que tem aqui? Funghi?
-Não, mulher.
E ela fecha de novo os olhinhos e o Alex também tenta adivinhar o que é. Eu digo que é coelho, e eles continuam tentando adivinhar tudo que tem ali dentro.
-Mili, o que tem aqui?
-Ah.. é segredo.
-Por que todo cozinheiro é assim? A gente fica na curiosidade de saber como se faz, e vocês só dizem que é segredo, que é segredo.
Então fiz um mapa mental de todos os passos que segui pra preparar tal prato e descobri porque dizemos que é segredo. Porque se eu começar:
-Olha, eu comecei com o caldo, ontem preparei com tantos legumes e deixei fervendo por horas. Também tem o fundo escuro que fiz as custas de tantas horas de forno e de fogo. Ai tem a cebolinha e o alho, depois torrei o arroz pra ele se proteger depois do caldo. Mas antes do arroz comecei com o coelho, que passei rápido na chapa com alho, canela sal e pimenta, só pra ele pegar o gostinho. Sim.. e o arroz.. aí eu torrei o arroz um pouco e fui colocando aos poucos o caldo que tinha feito ontem. Depois que o arroz me disse "passei da metade" eu coloquei o coelho depois do susto e continuei sempre ali, controlando o caldo e mexendo o arroz. Aí lá pras tantas, quando o arroz dizze "to quase lá. to chegando" eu coloquei a manteiga e não mexi mais por uns minutinhos. Aí coloquei também o fundo escuro que passei na chapa do coelho com vinho do porto. Aí dá esse adocicadinho que combina otimo com a canela que tinha colocado no coelho. Sim e no fim vai um Timo -como se diz em portugues? mas só no fim."
E é por isso que eu só digo: É segredo! Porque todo esse bla bla bla não faz sentido pra todo mundo e eu aprendi a custo de alguma -mesmo que pouca- experiencia e estudo. Eu sei que pra ficar perfeito o arroz precisa de todas as etapas, que se ficar um minuto a mais no fogo, o sabor muda e não fica tão bom, etc. Agora se você não acompanhou toda a minha narrativa, fecha os olhinhos e sinta. :) Isso já me faz um bem danado.
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Um comentário:
Nossa, esse post teve direito até a nova palavra no dicionário (linha 15)...
kkkkk
Poxa, é, realmente, é melhor eu fechar os olhos, e abrir bem a boca!
Quer dizer, seria... Primeiro, pq tu tá longe. Segundo, pq eu nunca comi coelho (vai que não goste do bicho). E terceiro... Será que teria um terceiro? Não, acho que não...
Pois façamos o seguinte... Quando a srta vier pra cá, vai ter que me mostrar tudo que aprendeu...
Como eu sou leiga, vou te dar praticamente 10 (principalmente nas sobremesas), e ficaremos ammas felizes! Que acha???
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