
-Emilia
-Hum.
-Acabar. Falar.
-Hum?
-Emilia. Acabar! Falar!
-AH tá.
O que ela quis dizer? Algo como: Emilia quando você acabar aí venha cá que eu quero falar com você. Mas pra que usar tantas palavras? Ana, a Coreana se comunica assim nessa lingua tão estranha pra ela. Italiano não é fácil pra ninguém.
Nossa comunicação é muito engraçada, um engraçado que com o tempo pode se desenvolver pra bizarro ou algo que venha a atrapalhar nossa convivência. Só o tempo dirá. Mas a Ana mesmo fala que sou muito paciente e que nunca conseguiu falar tanto italiano nesse tempo todo que está aqui. Também pudera.
-ANa
-Emilia
-Você não gostou de seu corte de cabelo?
-Não! Não. Não. Não...
-Oxe.. você falou pra cabelereira que tinha gostado.
-Sim, eu gostei.
-Votz.
Muito engraçado o jeito que ela repete as palavras mil vezes. Uma sangria desatada. E o não às vezes significa o contrário e vice-versa. Muito, muito confuso. Também a mania de repetir tudo que falo, é o que torna a comunicação mais lenta ainda.
-Emilia, viajar Italia?
-Viajei ou vou viajar?
-Viajei ou vou viajar?! Ahhh.. ahhhh... Hmmm... Viajou! Emilia viajou Itália?
-Sim, sim. Um monte de canto lá perto de Asti e também Milão, Bologna, morei em Florença...
-Ahhhhhhhhh. Milão, Bolonha e Florença?
-Sim, Ana. Milão Bolonha e Florença.
-Ahhhhhhhhhhh. Bello!
-Emilia, internet que horas fechado?
-Não sei, Ana.
-Não sei?
-É, não sei.
-Ahhh... não sei.
-Emilia, como é seu nome?
-Ana, meu nome é Emilia.
-Não, não. Isso! Isso! Vestido Emilia. Como é seu nome?
-Ah.. isso se chama SAIA!
-Ahh... seu nome é SAIA!
-Muito bem, Ana. S-A-I-A.
-Bella, bella. Emilia gostar saia?
-Sim. Gosto.
-Simmm... gosto. Emilia gostar saia!
-Exatamente.
-Ahhh.. exatamente. Saia.
-Emiliaaa
-QUié
-De que horas?
-De que horas o que, mulher de Deus?
-De que horas!
-O chef vem buscar? Às 9!
-Nove??????? NOVE????????????????
-Sim, NOVE!
Lá vem Ana correndo pra olhar pro relógio, que marca 15 pras 9.
-Nonnnnn Emilia. 8h45!
-Ahhh.. você queria saber agora. Foi mal.
-Agora. agora!
Em uma cena em que uma cachorra no cio veio até nós e ficou chorando por um tempo, enquanto esperávamos pelo chef fora do restaurante. O mesmo veio ver o porquê de tanto barulho e nos contou que aquela cachorra estava no cio e precisava de amor, deu um pão pra ela e ela foi embora.
-Ana, essa cachorra tá no cio.
-Cio?
-Cio. Ela precisa de amor. Fazer amor. (eu fazendo alguns gestos)
-Ahhhhhhh. Eu preciso fazer amor.
-Não Ana. Ela precisa. Quer dizer... sei lá né.
Então comecei a rir sozinha, enquanto a Ana ficava me olhando com aquela cara de dúvida, mas depois entrou risadagem.
Como segunda é nosso dia de folga, no domingo sempre saímos pra uma baladinha de leve. Ontem fomos a um bar legalzinho, tomamos -quase- todas e no caminho de casa compramos uma cerveja pra nos entreter durante a caminhada. Depois de chegarmos em casa, ainda bebendo a cerveja, a Ana me fala:
-Emiliaaa. Cerveja bom. Mas estômago repleto subitamente.
-heheahahaha.. Ana.. você é muito engraçada.
-Sim! Estomago repleto subitamente e pipi grosso.
-AHHHHHHHHHAHAHHAHAHHAHAHHAHAHA.. você me faz morrer de rir.
-Morrer de rir?
-É!!! Morrer de rir! Tipo MORTE RIR.
-Morte rir?
Aí eu continuo rindo muito e me faço de morta de repente. Acho que a Ana entendeu direitinho, porque caiu no chão de tanto rir e ainda me ensinou a falar "Morrer de rir" em Coreano. Agora pra eu aprender vai ser o mesmo processo da Ana aprender italiano.
E assim, entre gestos, infinitivos e risadagens, a gente se entende.
E agora eu já entendo quase tudo que Ana fala, e estamos nos comunicando melhor. O único problema é que eu estou começando a desaprender o italiano que aprendi e falar igual a ela.

farofa e sinto falta demais mas o cous-cous me consolava. Me apaixonei por esse prato. As meninas de casa sempre que viam cous-cous na rua compravam pra casa, por minha causa, e até hoje quando vêem por aí lembram de mim. Sabendo da minha nova paixão, o cous-cous, imaginem a minha alegria ao ter, na primeira aula em Costigliole d'Asti, um Chef cozinhando cous-cous com camarão. Meus olhos brilhavam, tenho certeza. Não acaba por aí. Adivinha quem é esse chef? O Pietro! O MEU chef! Agora faço estágio no restaurante dele. Parace coisa de destino. Arrepios... arrepios. Outra coisa!!!! O chef sempre pergunta como se fala uma ou outra coisa em português e a primeira palavra que ele perguntou, aprendeu e que é a preferida de todo mundo no restaurante é CAMARÃO. Ele até me chama assim de vez em quando. "Camaráo! Andiamo a mangiare!" Engraçado também é que eu me sinto como uma criança aprendendo a falar. Todas as pessoas que vão ao restaurante fora do horário de funcionamento, por exemplo algum fornecdor, alguém da família ou um amigo, ele leva na cozinha e diz: "Emilia, come si parla gamberi en portuguese?" Lá vou eu repetir: CAMARÃO. Sem dúvida, eu nunca falei tanto essa palavra na minha vida. Tenho que repetir, repetir e corrigir, porque ninguém fala justamente. Agora uma coisa que eles falam bem direitinho e bem melhor que muito brasileiro por aí é CABELERIRO.

