29 abril 2007

Arrivederci!

a última coisa que despachei pra sala- 3 bolinhas do sorvete de morango que eu tinha feito um dia antes. -percebam a cerveja-


Ontem foi meu último dia de trabalho. A noite estava linda e a cidade estava bombando. Bombando mesmo, a ponto de explodir. Durante o dia filas e filas de carro chegavam em busca de Hotel e iam embora logo em seguida já que não encontravam vaga nenhuma. Estava nos jornais que tinha engarrafamento na auto-estrada de Milão até aqui. Isso é muito.

Então nos preparamos pra o caos que seria nossa noite, que pra mim foi a última.


O dia começou mais cedo pra mim e pro Junya que fomos ao correio pra despacharmos nossos extras de inverno. Eu 35kg, ele 20. Ficamos não menos de uma hora pra enviar tudo direitinho. Nem comento das coisas que não funcionam bem aqui e do povo que também fica revoltado, igualzinho como no terceiro mundo. Isso é outra história.

Parecia que era meu aniversário. Eu sentia que o dia era meu, feito especialmente pra mim. Fiquei, como toda vez que 'faço ano', tentando guardar na memória todos os detalhes do último sorvete, do último taglioline, a última refeição, a última limpeza e contando as horas pra hora da festa começar, com os primeiros clientes. Chegaram todos juntos e muito tarde, o que é um sinal de que temos que triplicar a velocidade e já sabemos que sairíamos muito tarde dali. E é incrível como 5 horas passam como 5 minutos em uma cozinha.

Triplicar a velocidade do que já costuma ser rápido significa fazer antes de pensar, e fazer bem. Isso é tão estressante que todos os sábados temos a tradição de nos presentear com uma cerveja escondida na geladeira de cada um. Assim que cheguei aqui não entendia direito porque o Marco vez ou outra bebia de dentro de uma panela pequena. Sò depois de algumas semanas o vi colocando cerveja dentro da panelinha que ficava ali escondida do diretor, e quando a pasticceria era oficialmente minha, eu também tinha sempre aos sábados cerveja dentro da minha geladeira. O chef tinha a sua, o Junya tinha também, mas ele só bebia quando chegava em casa. Entre um prato e outro nas mãos do diretor ou da garçonete, abrimos a geladeira e damos aquele grande gole aliviannte... Tsss :) E ontem não podia ser diferente. Eu cheguei cedo com uma cerveja grande pra cada e no começo da noite já não tinha mais nada. Então cada um fazia rodízio ao bar mais próximo e chegava com váárias cervejas pequenas que escondiamos muito rápido nas devidas geladeiras. E ontem o Marco dava cerveja ao Junya como se ele fosse um ganso destinado a produção de foie gras. Era no gargalo, e na marra. Se a sociedade protetora dos japoneses visse isso...
Junya San de fogo, atrás de meu mousse de chocolate

SIm!!! Eu ando muito detalhista. Deixa isso pra lá. O fato é que a noite foi de muito suor, até porque tá um calor gostoso, e de compensações afetivas, profissionais e até financeiras $$$$$ por tanto trabalho. \o/ E a cena inesquecível: O Diretor entra na cozinha e vem em minha direção pra entregar uma comanda. Eu estava concentrada fazendo algum prato e nem percebo que esqueci a cerveja ali do meu lado, fora da geladeira. Ele olha pra cerveja e eu fico roooxa de vergonha... nem consigo falar nada. Ele pega a garrafa, olha pra mim, dá um gole demorado, entrega a comanda, diz pra eu fazer bonito e volta pra sala, como se o ritual entregar comanda-tomar cerveja-dar conselho amigo fosse algo que fizéssemos toda hora. Foi lindo. Eu ainda demorei uns segundos pra me recuperar do susto, enquanto o chef e o Marco riam de mim. E depois disso ninguém colocava mais cerveja na geladeira.


E agora, José? Sem trabalho significa sem casa pra morar. Pois é, mas todos os meus movimentos são minimamente calculados. Como já falei, sábado acordei muito mais cedo com o Junya e enviei todos os meus extras pro Brasil. Roupas de frio, tripe da câmera, a maioria de minhas facas, roupas que uso menos, livros... tanta coisa. Tantos quilos que não terei que carregar na minha nova jornada. E que jornada? TAN TAN TAN.. que suspense. Como ninguém quis renovar meu visto de estudos pra Itália, eu decidi ir estudar em outro lugar. Algo muito útil, que eu já comecei a estudar por duas vezes e nunca terminei... o Francês!!!!! Não vou pra França pois não conheço absolutamente ninguém por lá e não quero mais ficar sozinha. Vou é pra Bruxelas, que além de estar perto de amigos, os cursos custam menos e os restaurantes italianos são menos desdenhados que na França. Quem sabe eu não arranje um estagiozinho? Esses são os planos. 3 meses de curso de francês + possível estagiozinho em restaurante italiano.

Mas antes disso eu vou conhecer Roma, que ainda não tinha tido tempo de ir. Chego na Bélgica domingo e sabe-se lá quando conseguirei escrever aqui de novo. Provavelmente terai mais ânimo pra escrever, afinal ESTOU DE FÉRIAS.


Arrivederci Italha

23 abril 2007

Arrivederci?

O tempo tá passando cada dia mais depressa. Tenho feito novas escolhas e decisões a cada dia -ohhhhhhhhhhhhhh- e a cada dia decido uma coisa diferente. Só conto o que vou fazer nas vésperas... aguardem. Posso estar na Inglaterra, na Bélgica, na França ou no Marrocos dando aula de cozinha pra crianças carentes. QUem sabe eu não apareça por Natal? A minha passagem ainda está marcada pra semana que vem. :) Vai que me dá a doida.

O fato é que todos da minha turma já se mandaram e só eu ainda estou trabalhando. Ouço cada um contando das viagens, dos cruzeiros, de como é bom chegar em casa e eu só conto como minhas pernas estão doendo ou como o novo rapaz na cozinha me suga a energia vital e rompe il mio coglione todos os dias.
Planejo ver o papa em breve e dar todos os recados de vocês. Então vão enviando as mensagens de amor -ou não- que eu sussurro no ouvido dele. Vou me segurar pra não gritar no meio da Praça de São Pedro "VALEU MIGUEL MOSSORÓ!". Essa é a última coisa que me falta fazer na Itália, e só depois disso me sentirei livre pra partir.
Então é isso. Por enquanto deixo vocês com fotos e muitas fotos, incluindo de minha nova tatuagem italiana.


Ingrediente: Flores

17 abril 2007

Um caldo


Mas que calor que está fazendo.

Antes de começar a reclamar, vou esperar a coisa piorar bem e faltar água, como andam dizendo que vai acontecer.

Por enquanto eu estou só documentando a mágica que é a praia na europa. Um lugar de todos, onde alguém pra agradar à estética é raro. Se deliciem com as fotos que colocarei aqui nesse flog novo, dedicado solamente pra isso. Tirem onda, elogiem o povo ou só vejam como é curioso esse povo do velho mundo depois dos 25 graus.

Detalhes da Italia ... http://www.fotolog.com/detalia .. e eu agora descobri o super zoom da minha maquina. EEEEITA DANADO

10 abril 2007

Primavera

Foto do meu cantinho ao lado de meu chef e com nosso novo ingrediente: as flores.






Eu tenho uma prima chamada Vera. É prima torta, mas é prima. Casada com meu primo Júnior -o Juninho-, e juntos têm 6 filhos, das quais 5 meninas que vieram uma atrás da outra.
Quando me disseram na escola que o ano era dividido em quatro estações; Primavera, Verão, Outono e Inverno, eu decorei, todas na ordem, aprendi direitinho como funcionava os ciclos da natureza, o movimento da terra e do sol, mas nunca entendi bem como algo além do clima de Natal funcionasse na prática. Mas além do verão e do 'inverno' com chuvas de Natal, a Prima Vera eu conhecia, e sempre dizia isso pra professora.

Já o Outono eu conheci no Canadá. Tons do vermelho ao amarelo cobrindo o chão das praças de Toronto. As árvores dançando e ficando cada dia mais careca. Eu espirrava e me guardava dentro do meu casco, sempre em casa. No Canadá também conheci o frio. Meses de frio de congelar as bilas* e neve que se não fosse trabalhada, fazia montanha. Temperaturas que pareciam de mentira, tipo -45 que de -35 não tem muita diferença pra mim, que colocava roupa por cima de roupa, meia por cima de meia, gorro cobrindo a cabeça e panos cobrindo pescoço, boca e nariz. Eu rezava pra achar em algum lugar um óculos de natação pra colocar nos olhos e protegê-los assim do vento, que era de matar e diminuia a temperatura em 10 graus.

Sim.... mas tudo isso pra dizer que a PRIMAVERA CHEGOU AQUI NA BOTA!!! Que coisa linda é a Primavera. Não que a Prima Vera também não seja. Estou encantada com as novas cores que se mostram a cada dia onde antes só existia talinhos. E o cheiro? O cheiro da primavera é uma coisa que eu quero lembrar pra sempre. Parece que jogaram um Amaciante de cada cor em cada rua da cidade. Às vezes eu paro e tento descobrir de onde vem o cheiro, e descobrir que cara e cor ele tem. A flor do alecrim... meus deuses. Pequenina, lilás, e briga com o cheiro do alecrim, que já é maravilhoso. Eu olho, dou beijinho, tiro foto e COMO tudo. Trago pra casa, lavo e como mesmo. Primeiro as pura e depois tempero com sal, azeite e dependendo da flor eu coloco um tipo de vinagre. Não é frescura nem loucura. É estudo. :)

No restaurante também colocamos flores na salada a partir de agora. Fica muito bom... as rosas dão um adocicado ótimo e as cores nem se fala. A flor do alecrim descobrimos que fica bem com patê de foie gras e fazemos o mesmo agora em bolinhas pra colocar o alecrim com sua flor em cima. Tem o amor-perfeito, lavanda e mais um monte que ainda não descobri o nome, mas que reconheço pelo gosto.

A Primavera também trouxe a permissão pra usarmos mais cor nas roupas, e usar cada vez menos delas -as roupas-. Antes já tinha feito a temperatura que faz agora, mas ainda não era primavera e as pessoas ainda andavam vestiam tons escuros. Agora a primavera deu seu aval pra mostrarmos as pernocas, o decote e usar rabo de cavalo sorrindo nas ruas.
Eu tenho uma nova teoria, de que as pessoas bonitas na Itália são como os ursos. Estavam todas hibernando e só agora decidiram sair atrás de comida ou seja lá o que cada um procura.

Que povo bonito!!! A praia estava lotada, e de um dia pro outro.... assim... de um dia pro outro MESMO, todo mundo estava peladão pegando um sol na praia. Exatamente a mesma temperatura. Mas o que mudou? A PRIMAVERA!!! Ninguém morrendo de calor, suando e se fazendo oleoso. Mas ninguém morrendo de frio também. É a estação perfeita.

E o Sol? Quando vou pro segundo turno do trabalho, às 18h, preciso sair de óculos escuros. Às 19h30 vamos jantar e o sol está ainda lá alumiando tudo e a todos. Lá pras 21h que começa oficialmente a noite, e antes disse ainda é dia. O lado ruim disso é que as pessoas saem mais tarde pra jantar e me deixam de plantão no restaurante até mais tarde. Mas se fosse perfeito não teria tanta graça.

Essa semana levo minhas havaianas pra passear. :)


*Bilas no clubinho da UFRN era usado pra falar dos olhos. "E essas biiilas?" Aquele tempo...