Ontem foi meu último dia de trabalho. A noite estava linda e a cidade estava bombando. Bombando mesmo, a ponto de explodir. Durante o dia filas e filas de carro chegavam em busca de Hotel e iam embora logo em seguida já que não encontravam vaga nenhuma. Estava nos jornais que tinha engarrafamento na auto-estrada de Milão até aqui. Isso é muito.
Então nos preparamos pra o caos que seria nossa noite, que pra mim foi a última.
O dia começou mais cedo pra mim e pro Junya que fomos ao correio pra despacharmos nossos extras de inverno. Eu 35kg, ele 20. Ficamos não menos de uma hora pra enviar tudo direitinho. Nem comento das coisas que não funcionam bem aqui e do povo que também fica revoltado, igualzinho como no terceiro mundo. Isso é outra história.
Parecia que era meu aniversário. Eu sentia que o dia era meu, feito especialmente pra mim. Fiquei, como toda vez que 'faço ano', tentando guardar na memória todos os detalhes do último sorvete, do último taglioline, a última refeição, a última limpeza e contando as horas pra hora da festa começar, com os primeiros clientes. Chegaram todos juntos e muito tarde, o que é um sinal de que temos que triplicar a velocidade e já sabemos que sairíamos muito tarde dali. E é incrível como 5 horas passam como 5 minutos em uma cozinha.
Triplicar a velocidade do que já costuma ser rápido significa fazer antes de pensar, e fazer bem. Isso é tão estressante que todos os sábados temos a tradição de nos presentear com uma cerveja escondida na geladeira de cada um. Assim que cheguei aqui não entendia direito porque o Marco vez ou outra bebia de dentro de uma panela pequena. Sò depois de algumas semanas o vi colocando cerveja dentro da panelinha que ficava ali escondida do diretor, e quando a pasticceria era oficialmente minha, eu também tinha sempre aos sábados cerveja dentro da minha geladeira. O chef tinha a sua, o Junya tinha também, mas ele só bebia quando chegava em casa. Entre um prato e outro nas mãos do diretor ou da garçonete, abrimos a geladeira e damos aquele grande gole aliviannte... Tsss :) E ontem não podia ser diferente. Eu cheguei cedo com uma cerveja grande pra cada e no começo da noite já não tinha mais nada. Então cada um fazia rodízio ao bar mais próximo e chegava com váárias cervejas pequenas que escondiamos muito rápido nas devidas geladeiras. E ontem o Marco dava cerveja ao Junya como se ele fosse um ganso destinado a produção de foie gras. Era no gargalo, e na marra. Se a sociedade protetora dos japoneses visse isso...
Junya San de fogo, atrás de meu mousse de chocolate
SIm!!! Eu ando muito detalhista. Deixa isso pra lá. O fato é que a noite foi de muito suor, até porque tá um calor gostoso, e de compensações afetivas, profissionais e até financeiras $$$$$ por tanto trabalho. \o/ E a cena inesquecível: O Diretor entra na cozinha e vem em minha direção pra entregar uma comanda. Eu estava concentrada fazendo algum prato e nem percebo que esqueci a cerveja ali do meu lado, fora da geladeira. Ele olha pra cerveja e eu fico roooxa de vergonha... nem consigo falar nada. Ele pega a garrafa, olha pra mim, dá um gole demorado, entrega a comanda, diz pra eu fazer bonito e volta pra sala, como se o ritual entregar comanda-tomar cerveja-dar conselho amigo fosse algo que fizéssemos toda hora. Foi lindo. Eu ainda demorei uns segundos pra me recuperar do susto, enquanto o chef e o Marco riam de mim. E depois disso ninguém colocava mais cerveja na geladeira.
E agora, José? Sem trabalho significa sem casa pra morar. Pois é, mas todos os meus movimentos são minimamente calculados. Como já falei, sábado acordei muito mais cedo com o Junya e enviei todos os meus extras pro Brasil. Roupas de frio, tripe da câmera, a maioria de minhas facas, roupas que uso menos, livros... tanta coisa. Tantos quilos que não terei que carregar na minha nova jornada. E que jornada? TAN TAN TAN.. que suspense. Como ninguém quis renovar meu visto de estudos pra Itália, eu decidi ir estudar em outro lugar. Algo muito útil, que eu já comecei a estudar por duas vezes e nunca terminei... o Francês!!!!! Não vou pra França pois não conheço absolutamente ninguém por lá e não quero mais ficar sozinha. Vou é pra Bruxelas, que além de estar perto de amigos, os cursos custam menos e os restaurantes italianos são menos desdenhados que na França. Quem sabe eu não arranje um estagiozinho? Esses são os planos. 3 meses de curso de francês + possível estagiozinho em restaurante italiano.
Mas antes disso eu vou conhecer Roma, que ainda não tinha tido tempo de ir. Chego na Bélgica domingo e sabe-se lá quando conseguirei escrever aqui de novo. Provavelmente terai mais ânimo pra escrever, afinal ESTOU DE FÉRIAS.
Arrivederci Italha

