08 janeiro 2007

Taormina parte I

As coisas na minha vida vivem se repetindo de uma forma muito estranha. As coincidências e repetições que andam acontecendo me dáo até um arrepio meio gostoso e meio assustador.
Por exemplo, eu estou morando em uma cidade Turística. No mar, onde quase todo mundo se conhece e tem muita gente snob. Viver aqui custa caro e tem muita coisa pra turista ver. Não voltei pra Natal, mas estou morando em Taormina. Bela, belíssima. Cara, caríssima. Coisa pra fazer? Sim, claro. Junto com o povo snob que estraga todos os lugares legais que tem na cidade. Oxe! Ô sorte.
Aí é uma coincidência. Ou seria perseguição? Agora repetições:-A metade do tempo que morei no Canadá, eu morei na casa de uma família Coreana. E agora aqui em Taormina eu divido a casa e o quarto com uma Coreana. -No Canadá eu experienciei pela primeira vez viver com uma mexicana macheira. A Brenda. Hiperativa, jovem, bonita na mesma medida que burra e caráter inversamente proporcional a quantidade de dinheiro que tinha no bolso. Dava show na escola, fazia barraco, se insinuava pros garotos, falava, falava, falava e não dizia bulhufas e desdenhava de quem não tinha tanto dinheiro quanto ela. Esse não é o tipo de gente pra quem dedico meu sorriso minha atenção. Esse tipo de gente não gosta de quem não os dá atenção e sorrisos -mesmo que amarelos-. Isso foi em 2003, quando eu tinha 19 anos e a Brenda 17. Em Costigliole d'Asti, por 2 meses, a mesma história se repetiu. A minha versão do fato é que a Brenda, em 3 anos envelheceu mais 17 anos e veio trazer sua energia negra pra Itália. Mais uma mexicana macheira em minha vida. Não me entendam mal. Nem toda mexicana é macheira e nem toda macheira é mexicana -trava língua-. Repita comigo, 10 vezes sem pestanejar: "Mexicana macheira"... fácil né? Pois é.. porque as duas coisas combinam bem direitinho. Enfim. A mexicana macheira agora na Iália é casada e tudo, e é igualzinha a Brenda, com a diferença que se espera que aos 34 anos você tenha aprendido alguma coisa de útil em sua vida além de estragar a alegria dos outros ou gritar pelos cantos e dar em cima dos maxo tudin. Escrevo assim mesmo porque com o sotaque nordestino o que eu quero dizer faz mais sentido. Nenhuma mexicana macheira gosta de mim, e eu também não coloco elas na minha lista de 'pessoas do bem que quero perto de mim pra todo o sempre'. Esse tipo de gente me persegue. Tudo se repete: primeiro me tratam mal, me desdenham, me chamam de pobre -acreditem. isso pra elas é o pior dos insultos e eles usam pra qualquer um que não tenha um carro tão caro quanto o delas-, fazem fofoquita e findam sempre por tentar ser legal e me agradar ao extremo. Por que? Acho que é o tal do Karma. Meu Karma = Mex Mach.
Mais coincidências: -No nosso último fim de semana, levei as americaninhas pra passear na minha querida Florença. Nos hospedamos em um albergue simples e baratinho mas muito justo. Há pouco menos de 24 horas tinhamos recebido o nome do restaurante que faríamos o estágio e, claro, a região e cidade. EU já tinha de cor o nome da minha cidade: Taormina. Pois bem, entro no quarto do albergue, em Florença e dou de cara com um quadro do meu tamanho escrito: "TAORMINA". Uhhhh... arrepios. -No mês que passei em Florença, assim que cheguei aqui na Itália, descobri o Cous-cous. Maravilha marroquina que eu comia todos os dias com cogumelos, abobrinha e tudo mais que tivesse na geladeira. Fazia sempre uma mistureba gostosa e aquilo me lembrava um pouco as farofas que eu fazia no Senac. Adoro

farofa e sinto falta demais mas o cous-cous me consolava. Me apaixonei por esse prato. As meninas de casa sempre que viam cous-cous na rua compravam pra casa, por minha causa, e até hoje quando vêem por aí lembram de mim. Sabendo da minha nova paixão, o cous-cous, imaginem a minha alegria ao ter, na primeira aula em Costigliole d'Asti, um Chef cozinhando cous-cous com camarão. Meus olhos brilhavam, tenho certeza. Não acaba por aí. Adivinha quem é esse chef? O Pietro! O MEU chef! Agora faço estágio no restaurante dele. Parace coisa de destino. Arrepios... arrepios. Outra coisa!!!! O chef sempre pergunta como se fala uma ou outra coisa em português e a primeira palavra que ele perguntou, aprendeu e que é a preferida de todo mundo no restaurante é CAMARÃO. Ele até me chama assim de vez em quando. "Camaráo! Andiamo a mangiare!" Engraçado também é que eu me sinto como uma criança aprendendo a falar. Todas as pessoas que vão ao restaurante fora do horário de funcionamento, por exemplo algum fornecdor, alguém da família ou um amigo, ele leva na cozinha e diz: "Emilia, come si parla gamberi en portuguese?" Lá vou eu repetir: CAMARÃO. Sem dúvida, eu nunca falei tanto essa palavra na minha vida. Tenho que repetir, repetir e corrigir, porque ninguém fala justamente. Agora uma coisa que eles falam bem direitinho e bem melhor que muito brasileiro por aí é CABELERIRO.
Tá bom de tanta coincidência. Agora vou deixar vocês saberem um pouco da Sicília.Os Sicilianos são meio folgados e estão para a Itália como os nordestinos estão para o Brasil. Saidinhos, falam estranho, a economia não é a melhor do país -se é q vcs me entendem-, têm verde o ano inteiro, são mais alegres, um pouco mais preguiçosos -só um pouquinho viu- e têm a cabeça meio chata. Brincadeirinha ;) O fato é que na Sicília me sinto em casa. Um rapaz, que foi ao restaurante esses dias, não acreditou que eu não sou Siciliana. O chef me apresentou a ele:-Minha estagiária, brasiliana. -Emilia, muito prazer.-Oxe... tu é brasiliana nada. -Sou sim ué. Por que você diz que não?-É brasiliana sim, rapaz. Brasiliana! Brasiliana! Disse o chef-hehehe... Vocês querem me enrolar. Sim... mas e o Etna rapaz.. tá cheio de neve. Dá pra esquiar... e bla bla blaContinuaram a conversa normalmente e eu fiquei com cara de bunda esperando uma brincadeirinha típica do tipo "brasil não é tão bom quanto a Itália no futebol" ou "samba! carnaval!". Mas nada. O cara estava convicto que eu era Siciliana e pronto, nem adiantava discutir.
Quanto a cidade, ainda não vi muito. FUi ao mercado de peixe com o chef e no caminho ele parou pra eu tirar foto. Ali é a Isola Bella, que é patrimônio da humanidade. Lindinha de longe. Hoje, minha primeira folga, vou lá.
Outra coisa sobre a Sicília é que aqui estou testando todos os meus limites. Pelo menos 14 horas de pé por dia, casa com goteira -tortura chinesa mesmo-, casa fria, casa velha, colchão com buraco. Me surpreendi com o lixo de casa que me deram pra morar. Do chuveiro saem três tímidas correntes de água que até se perdem no meu corpo frio. Na cozinha a pia precisa ser aberta pelo menos 5 minutos antes de usarmos e o fogão só tem uma chama funcionando e mesmo assim não serve nem pra aquecr a unha. Tudo bem, pensei eu. Tenho um computador e vou achar wireless aqui. Né possível. Até no meu quarto em Natal, funcionava. NADA! Nenhum sinalzinho. Nada de TV na casa, nada de telefone. Mas ainda resta meu celular. Vou fazer contato com o mundo antes de enlouquecer. OXE!!!!! Não tem sinal dentro de casa!!!!!! Preciso sair na calçada pra usar o celular. olhe que apesar de ensolarados, os dias aqui são frios. Nemmmm. Pelo menos eu não passo tanto tempo -ou tempo nenhum- em casa. Ás 9 da manhça o chef me busca aqui e me leva pro restaurante. Fazemos todo o pré-preparo, organizamos, sistemamos -palavra usada a cada 5 minutos- limpamos. Às 12h30 o restaurante abre e começa a agonia. Assumi a pasticceria e as entradas por esse mês e mês que vem eu passo pro primeiro prato. :) ê. A Ana, Coreana, agora largou a pasticceria pra mim e se mandou pro primo piato. Pois bem, 12h30 agonia até às 15h. 15h começa a lavagem. Limpa, varre, sistematiza -essa palavra existe?- e às 16h o chef me traz em casa. Lá se vão 7 horas de trabalho. Pés latejando, me jogo na cama do jeitinho que chego em casa. 18h e lá vem ele de novo gritando meu nome na rua. EMILIAAA CAMARÃOOOOO. O chef me busca às 18h e começamos tudo de novo para às 19h30 começar a agonia. A agonia, apesar de demorar às vezes até 6 horas, passa como um minuto. Bem rapidinho deixamos um bucado de gente feliz, com a pança cheia e o caixa pleno de tutu. É incrível como se paga caro pra comer bem aqui. Mas se come bem demais. Tudo fresquinho, gostosinho e feito com carinho. owwww. 5, 6 ou 7 horas depois, começamos a lavar tudo. A noite a lavagem é mais pesada e só chego em casa por volta de 1 ou 2 da manhã. CAMA!
Hoje é domingo, pé de cachimbo. Dia calmo no restaurante e à noite nada de lavoro. Amanhã também não abre. Terça também não. VIVA A BAIXA ESTAÇÃO!!!!!!! Mas eu preciso de um descanso, pois preciso ver o tempo passar. Eu não tinha idéia de que hoje já -ou ainda- era domingo. E outra coisa. Ganhei meu primeiro dinheiro na cozinha. Na hora de dividir as gorjetas, o pessoal do serviço de sala me deu uma parte. Uma nota velha de 5 euros. owwwwwwwwwww :)

E essa desorganização no blog é porque a internet aqui custa 2 euros a cada 20 minutos. Me recuso a ficar muito tempo. Nemmmm

Nas fotos: Eu e a Isola Bella, os pratos do restaurante, e o povo do restaurante.

Link util: http://www.jrenederland.nl/Restaurant.aspx?RestaurantID=03904524


3 comentários:

Anônimo disse...

Oh rotina puxada,tadinha da minha amiga,mas valeu a gorjetinha né,emilia camarão tá ótimo.
Cheiro miga!

Anônimo disse...

'pessoas do bem que quero perto de mim pra todo o sempre'

adorei.. vc é uma fooooofaaaaa
saudade de vc priminha!!! quando voltar.. volta direto pra ca!! pelo menos pra uma passadinha ta???

:***

Anônimo disse...

Delícia de texto.